• O que realmente acontece na primeira sessão de terapia (e por que tanta gente desiste antes de marcar)

    O passo mais difícil da terapia costuma ser o de marcar. Entenda o que te espera do outro lado da porta.

    Existe um tipo de fila de espera que não aparece em nenhuma agenda: a das pessoas que já decidiram fazer terapia, mas ainda não marcaram. Talvez você esteja nela agora. O número do psicólogo salvo no celular há meses, a intenção renovada toda segunda-feira, e alguma coisa que sempre adia o clique final.

    Se é o seu caso, você não está enrolando por preguiça. Existe um medo real por trás dessa demora, e ele tem nome, tem explicação e, felizmente, tem solução. Boa parte desse receio vem de não saber o que acontece do outro lado. A gente costuma temer o que não conhece. Então vamos abrir essa porta juntos e olhar o que tem lá dentro.

    Por que dar o primeiro passo é tão difícil

    A procura por psicoterapia cresceu muito nos últimos anos, empurrada pelas demandas de luto, isolamento e pressão financeira que vieram com a pandemia. Mesmo assim, muita gente que precisa continua sem buscar ajuda. Os motivos se repetem nos consultórios.

    O primeiro é o estigma, aquele que ainda faz da frase “você devia fazer terapia” um quase xingamento. Existe uma crença antiga, e equivocada, de que só procura psicólogo quem tem um problema grave, quase um atestado de fracasso pessoal. A realidade é o oposto. Buscar terapia costuma ser sinal de quem está prestando atenção em si mesmo antes que o problema cresça.

    O segundo é o medo do julgamento. “Será que vou ser julgado? E se eu não souber o que dizer? E se eu chorar na frente de um estranho?” Essas perguntas aparecem na cabeça de praticamente todo mundo antes da primeira sessão, inclusive de psicólogos que vão fazer terapia. São dúvidas absolutamente normais, e nenhuma delas se confirma na prática.

    O terceiro é logístico, e esse é mais concreto: falta de tempo, dificuldade de encontrar um profissional de confiança, a agenda que nunca fecha. Foi justamente para derrubar essa barreira que o atendimento online ganhou espaço. Para quem tem uma rotina apertada, ou para quem sente que sair de casa já é parte do problema, começar do próprio quarto pode ser o empurrão que faltava.

    A primeira sessão não é o que os filmes mostram

    Esqueça o divã, o silêncio constrangedor e o psicólogo anotando julgamentos num caderninho. Essa imagem vem do cinema, não da clínica. O divã, por exemplo, nem é usado pela maioria dos profissionais, e quem usa jamais obriga ninguém a se deitar logo de cara.

    Na prática, o primeiro encontro é, antes de tudo, uma conversa para vocês dois se conhecerem. O psicólogo Bruno Marinho de Sousa, doutor em Neurociências pela USP, usa uma imagem que descreve bem esse momento: fazer psicoterapia é um pouco como viajar para um lugar que você nunca visitou. Você sabe o destino, sente-se melhor, entender o que está acontecendo, mas ainda não conhece o caminho. A primeira sessão é onde esse mapa começa a ser desenhado.

    Costuma-se chamar esse encontro inicial de entrevista, acolhimento ou anamnese. Apesar do nome técnico, não tem nada de interrogatório. É uma conversa em que o profissional busca entender quem é você, o que te trouxe até ali e o que você espera desse processo.

    O passo a passo do que costuma acontecer

    Cada psicólogo tem seu estilo, e a abordagem influencia o ritmo do encontro. Ainda assim, a primeira sessão costuma passar por algumas etapas parecidas:

    O acolhimento. O profissional se apresenta, explica como trabalha, fala sobre a duração e a frequência das sessões. É o momento de baixar a guarda e perceber que ali é um espaço seguro.

    A famosa pergunta. Em algum momento vem o “o que te trouxe aqui?”. E aqui vai um alívio: você não precisa de um discurso pronto, cronológico ou organizado. Pode falar do jeito que as coisas vierem à cabeça. Ninguém espera clareza total logo de início. Aliás, descobrir o que exatamente te incomoda já é parte do trabalho.

    A conversa sobre a sua história. O psicólogo vai querer conhecer seu contexto: rotina, sono, relações, saúde física, uso de medicação, histórico familiar. Não é um formulário frio. Cada pergunta serve para ele enxergar você por inteiro, não em pedaços soltos.

    Os combinados. Frequência, valores, política de faltas e, sobretudo, o sigilo. Tudo o que se fala ali dentro fica ali dentro. Esse é um dos pilares da relação terapêutica.

    O aviso honesto que ninguém te dá

    Aqui vai algo que muitos profissionais gostariam que você soubesse antes: é bem provável que você saia da primeira sessão com a sensação de que “falou, falou e não resolveu nada”. E está tudo certo com isso.

    A primeira conversa é o mapa do terreno, não a viagem inteira. Esperar que ela resolva o seu problema é como começar a academia hoje e querer sair com o corpo definido no mesmo dia. Terapia é um processo, e os resultados aparecem ao longo dos encontros, conforme a relação de confiança se constrói. O psicólogo não vai te entregar uma solução pronta nem dizer o que você “tem que fazer”. O trabalho dele é ajudar você a enxergar suas questões por outros ângulos e a construir as próprias saídas.

    Outra coisa que tira um peso: nem sempre a primeira escolha de profissional será a definitiva, e isso é normal. Se depois de algumas sessões você não se sentir confortável, vale conversar abertamente sobre isso. Muitas vezes, essa própria conversa sobre o desconforto já vira parte do processo.

    Como chegar mais tranquilo ao primeiro encontro

    Se quiser se preparar, um exercício simples ajuda: antes da sessão, anote o que te levou a buscar ajuda. Podem ser emoções confusas, comportamentos que se repetem, situações que marcaram você. Não existe certo ou errado nessa lista. Ela serve só para você não sentir que precisa dar conta de tudo de improviso.

    E se bater o nervosismo na hora, tudo bem também. Você pode, inclusive, começar a sessão dizendo que está nervoso. Acredite, o profissional já ouviu isso muitas vezes, e provavelmente é um ótimo ponto de partida.

    Na UNA Psicologia, esse primeiro encontro é conduzido sem pressa e sem julgamento, seja no atendimento presencial na Vila Olímpia ou online. A ideia é simples: que você saia da primeira conversa sentindo que está no lugar certo para cuidar de si.

    O passo mais difícil, quase sempre, é o de marcar. Depois dele, o caminho costuma ser mais leve do que a espera fazia parecer.

    Fontes:

    • Instituto de Psicologia Aplicada (Inpa), guia sobre sessões de terapia
    • Zenklub, guia sobre o que acontece em uma sessão de terapia
    • Dr. Bruno Marinho de Sousa (Doutor em Neurociências, USP), “Primeira sessão de psicoterapia: o que esperar”
    • Clínica Darmas, “O que esperar das primeiras sessões”
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